http://aspta.org.br/campanha/pesquisa-confirma-presenca-de-toxina-transgenica-no-sangue-de-mulheres-gestantes-e-fetos/.

Pesquisa confirma presença de toxina transgenica no sangue de mulheres gestantes e fetos.

Maio 10, 2011


Citando AS-PTA
Número 536 – 06 de maio de 2011
O aumento das pragas secundárias nos plantios de algodão Bt na China tem feito com que a redução do uso de agrotóxicos seja na prática bem menor do que a alegada. Essa é a principal conclusão de estudo publicado recentemente na revista científica Environmental Monitoring and Assessment,elaborado com base em entrevistas com mil produtores de cinco províncias do país.
As sementes do algodoeiro foram geneticamente modificadas para que a planta produza uma toxina letal a um tipo de lagarta, mas com o passar do tempo insetos-praga de importância secundária passaram a causar prejuízos mais significativos, entre eles pulgões e ácaros. O fato decorre da combinação entre propaganda abusiva da indústria e crença em soluções mágicas para problemas agrícolas.
A pesquisa mostrou que os produtores se referem às sementes transgênicas como “resistentes a pragas”, sendo que 85% dos entrevistados nunca ouviu falar em “algodão transgênico” e 94,5% deles desconhecem o termo “gene Bt”.
Jennifer Zhou, da Universidade Agrícola da China, e seus colegas apontam que na literatura científica o crescimento das pragas secundárias é explicado como resultado da ineficácia do algodão Bt contra outros insetos que não a lagarta e da redução da aplicação de venenos no algodão (90% dos entrevistados relataram controle efetivo da lagarta). A difusão da tecnologia desacompanhada de informações adequadas aos produtores engrossa o problema. E a propaganda enganosa das empresas induz ao manejo errado ao afirmar que as “sementes resistentes a pragas” dispensam o uso de agrotóxicos.
De quebra, do universo dos entrevistados, cerca de um quarto relatou menor produtividade das variedades Bt em relação às convencionais, e cerca de 60% responderam que o Bt não reduziu o custo de produção já que suas sementes são mais caras. Ou seja, mais um elemento da propaganda que cai por terra.
Mas não só as pragas secundárias: os alvos originais do Bt também desenvolvem resistência
. A própria Monsanto já reconheceu o problema com seu algodão Bollgard na Índia e comunicou o fato na revista Science (vol. 327 – Hardy Cotton-Munching Pests Are Latest Blow to GM Crops – Boletim 483 e 309). Mas no mesmo informe a empresa jáanunciou a solução para o problema por ela criado: o Bollgard II, que produz duas proteínas Bt ao invés de apenas uma como o Bollgard.

Abril 17, 2011

CITANDO: Fonte ASPTA
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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,
LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS
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Número 534 – 16 de abril de 2011
 
Car@s Amig@s,
Na última terça-feira (12/04) os parlamentares do Comitê Ambiental da Comissão Europeia (CE) aprovaram emendas sobre uma proposta que permitiria que países do bloco, individualmente, proibissem ou impusessem restrições à liberação do cultivo comercial de transgênicos.
A proposta havia sido apresentada pela Comissão em julho último. Mas, ao contrário do que se pode imaginar à primeira leitura, não agradou aos países e organizações contrárias à liberação de transgênicos em solo europeu. Segundo a interpretação dada por estes grupos, tratava-se de uma manobra para, justamente, facilitar a introdução de lavouras transgênicas no bloco.
O raciocínio é simples. Pelas regras atuais, a autorização para o cultivo de transgênicos se dá no nível do bloco econômico. Embora a Comissão seja favorável à abertura do mercado para as sementes transgênicas, muitos países são fortemente contrários à tecnologia, o que acaba dificultando a liberação.
Com efeito, até hoje somente duas variedades transgênicas receberam autorização para cultivo na Europa: o milho Bt (tóxico a lagartas) MON 810, da Monsanto, e a batata Amflora, da Basf, destinada à produção de amido para uso industrial. Mas a rejeição aos transgênicos na Europa é tão grande que a Comissão Europeia bem que tentou, mas não conseguiu evitar que a Áustria, França, Grécia, Hungria, Alemanha e Luxemburgo usassem salvaguardas para proibir essas sementes modificadas em seus territórios.
A manobra então arquitetada pela CE para resolver o impasse e facilitar a entrada dos transgênicos na região foi a de oficializar o poder dos países de proibir os transgênicos em seus territórios, ao passo em que seguiria com suas normas frágeis e questionáveis para promover a liberação de novas variedades no nível europeu. Daí para a contaminação inviabilizar, na prática, a proibição imposta por países individualmente seria um passo.
Mais que isso, segundo a proposta original da CE, as proibições ou restrições nacionais deveriam ser baseadas em uma lista de fatores muito frágeis que incluía, por exemplo, questões culturais e morais. Como resultado, valeriam as autorizações regionais enquanto as proibições por país acabariam questionadas na justiça ou na OMC (Organização do Comércio) pelas empresas de biotecnologia.
Pois bem, o relatório elaborado pela parlamentar francesa Corinne Lepage e aprovado esta semana busca reforçar a autonomia dos países para proibir sementes transgênicas e, ao mesmo tempo, escapar das armadilhas preparadas pela CE.
O novo texto inclui uma série de questões de fato relevantes que poderão subsidiar as proibições aos transgênicos, necessárias para torná-las juridicamente fortes. A principal delas diz respeito aos riscos ambientais, como a contaminação de variedades não-transgênicas, o desenvolvimento de resistência das plantas aos herbicidas, além da necessidade de conservação da biodiversidade. O Comitê considerou ainda que impactos socioeconômicos podem também legitimar proibições: por exemplo, há casos em que os riscos de contaminação na prática não podem ser controlados de modo a proteger outros tipos de agricultura.
A proposta também prevê que as regras da União Europeia (UE) para autorização de novos transgênicos tornem-se mais rigorosas — o que já havia sido demandado pelos ministros de meio ambiente dos 27 estados membros em 2008.
Além disso, o Comitê quer que todos os membros da UE tomem medidas para evitar a contaminação provocada pelas lavouras transgênicas. E que, caso essas medidas falhem, os governos garantam que os responsáveis pela contaminação paguem pelos danos causados.
Não menos importante, a proposta aprovada pelo Comitê prevê ainda que as empresas de biotecnologia finalmente permitam que seus transgênicos patenteados sejam usados por pesquisadores independentes para a realização de avaliações de risco ambiental e à saúde (um dos motivos para haver pouca pesquisa independente sobre riscos dos transgênicos, já que as empresas restringem acesso dos pesquisadores a suas sementes).
Em 07 de junho próximo a proposta será votada pelo plenário do Parlamento Europeu. Depois, os governos dos países precisarão também aprová-la antes que entre em vigor.
Tudo indica que as empresas e o lado pró-biotecnologia da CE receberam um balde de água fria com esta votação. E as organizações antitransgênicos da Europa estão mobilizadas para apoiar a aprovação da medida em todas as instâncias e fortalecer a resistência regional aos transgênicos na agricultura.
CITANDO: Fonte ASPTA
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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,
LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS
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Número 531 – 25 de março de 2011
Car@s Amig@s,
Uma nova pesquisa realizada na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) revela mais um aberrante efeito do uso generalizado de agrotóxicos sobre a população das regiões de grande produção agrícola.
Em Lucas do Rio Verde, município situado a 350 km de Cuiabá, foram coletadas amostras de leite de 62 mulheres atendidas pelo programa de saúde da família. A coleta foi feita entre a 3ª e a 8ª semana após o parto.
Em 100% das amostras foi encontrado ao menos um tipo de agrotóxico. Em 85% dos casos foram encontrados entre 2 e 6 tipos. Entre as variáveis estudadas, ter tido aborto foi uma variável que se manteve associada à presença de três agrotóxicos.
A substância com maior incidência é conhecida como DDE, um derivado de outro agrotóxico, o DDT, proibido pelo Governo Federal em 1998 por provocar infertilidade no homem e abortos espontâneos nas mulheres.
O trabalho de pesquisa foi realizado pela mestranda em Saúde Coletiva da UFMT Danielly Palma, sob orientação do Prof. Wandeley Pignati.
Lucas do Rio Verde está entre os maiores produtores de grãos do Mato Grosso e entre os maiores produtores nacionais de milho “safrinha”, figurando como um dos principais pólos do agronegócio do estado e do país. Os defensores do modelo agroquímico que impera na região consideram o município como modelo de desenvolvimento.
Mas a imagem da cidade começou a ser manchada quando, em março de 2006, a cidade foi banhada pelo herbicida Paraquate, usado na plantação de soja. O veneno, despejado de um avião agrícola, destruiu plantações, hortas e jardins. Atingiu também cursos d’água, casas e pessoas, provocando problemas de saúde e colocando em risco toda a população local.
Este caso específico acabou ganhando divulgação nacional graças ao trabalho de um repórter da Radiobrás (seu trabalho originou o livro:MACHADO, P. Um avião contorna o pé de jatobá e a nuvem de agrotóxico pousa na cidade – história da reportagem. Brasília: Anvisa, 2008. 264 p.). Mas infelizmente, não se tratou de um caso isolado: ao contrário, ano após anos, “acidentes” como esse se repetem nas muitas cidades onde o agronegócio prospera.
Depois deste caso, uma pesquisa feita em parceria pela a Fundação Oswaldo Cruz e a UFMT encontrou resíduos de agrotóxicos no sangue e na urina de moradores, em poços artesianos e amostras de ar e de água da chuva coletadas em escolas públicas dos municípios de Lucas do Rio Verde e Campo Verde (dois dos principais produtores de grãos do estado).
O monitoramento da água de poços revelou que 32% continham resíduos de agrotóxicos. Das amostras de água da chuva analisadas, mais de 40% estavam contaminadas com venenos.
Boa parte desta contaminação é proveniente da pulverização aérea de venenos que é praticada na região. Vários estudos demonstram que, na prática, apenas uma parte dos agrotóxicos aplicados sobre lavouras se deposita sobre as plantas. O resto escorre para o solo ou segue pelos ares para contaminar outras áreas. Segundo diversas pesquisas realizadas pela Embrapa Meio Ambiente, em média apenas metade do que é pulverizado atinge o alvo. A parte que se perde no solo ou é carregada pelo vento pode comumente ultrapassar 70% do produto aplicado.
Mas um dos aspectos mais lamentáveis de todo este drama é que, ao prestar este valioso serviço à sociedade, estudando e comprovando os efeitos danosos dos venenos agrícolas sobre as pessoas e o meio ambiente, os pesquisadores têm se tornado vítimas de ataques pessoais. Via de regra, quando são divulgados resultados de pesquisas como estes, demonstrando a contaminação da água, do sangue ou do leite materno, os defensores do modelo agroquímico de produção partem para o ataque à reputação dos cientistas e, comumente, lançam dúvidas levianas sobre os métodos e a qualidade das pesquisas. Mas, claro, nunca propõem contraprovas ou a repetição dos testes.
Um exemplo tocante deste fenômeno está publicado na seção de comentários do site 24 Horas News, um dos veículos que divulgou a notícia da contaminação do leite materno em Mato Grosso. Diz o internauta Josué:
Já estou providenciando a foto dessa “pesquisadora” da UFMT e vou espalhar aqui pelo Nortão todo, nos postes, com a frase: PROCURA-SE – RECOMPENSA DE R$ 10 MIL. Depois vamos dar uma coça nela com pé de soja seco, que ela nunca mais vai pesquisar nada aqui” (18/03/2011 13:13:00).
Em agosto de 2010 o professor da Universidade de Buenos Aires Andrés Carrasco foi agredido ao visitar região produtora de soja no país onde participaria de evento para apresentar os dados de sua pesquisa que mostraram os danos causados pelo herbicida glifosato. O estudo foi publicado na Chemical Research in toxicology.
É por essas e muitas outras que poucas pesquisas têm sido realizadas sobre este tema. Este é apenas um exemplo grosseiro das pressões que pesquisadores sofrem — em muitos casos dentro de suas próprias instituições. É preciso muita coragem para cutucar o agronegócio com vara curta.
O que estas pesquisas estão mostrando é apenas a ponta do iceberg. Procurando, muito mais evidências dos efeitos nefastos do uso maciço de venenos agrícolas serão achadas.
Com informações de:
Jornal da Band, 21/03/2011.
O Globo, 23/03/2011.
24 Horas News, 17/03/2011.
Universidade Federal do Mato Grosso, 15/03/2011.

 

 

Fevereiro 26, 2011

Arquivo: Edição de 30-01-2010 SECÇÃO: Destaque Entrevista a Carlos Coutinho, autor de “Artrópodes Auxiliares na Agricultura” Mais conhecido em Ermesinde por outras actividades, de carácter cívico, o técnico agrícola (da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte) Carlos Coutinho é o autor de numerosos trabalhos de investigação, sendo eventualmente o mais ambicioso “Artrópodes Auxiliares da Agricultura”, editado com data de Dezembro de 2007, e para o qual se prepara, em breve, uma segunda edição. Esta conversa pretende dar a conhecer aos leitores a importância deste trabalho – para os agricultores e sobretudo para os futuros técnicos –, e divulgar igualmente junto da nossa comunidade, a importância do trabalho científico levado a cabo pelo autor e desconhecido da generalidade dos nossos leitores, e ainda abordar várias questões da sua competência, no domínio das práticas agrícolas e da política ambiental. Fotos URSULA ZANGGERTécnico do Ministério da Agricultura ,do Desenvolvimento Rural e das Pescas na Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte, Carlos Coutinho é o autor do livro “Artrópodes Auxiliares da Agricultura”. Como lhe veio o projecto da publicação deste livro?

 

De uma forma quase fortuita, apenas porque ao trabalhar numa das muitas fichas de que é autor (e que estão publicadas no site da DRAP Norte, inclusive disponíveis para download), ao deparar–se com a informação recolhida e tratada, sobre a importância do papel auxiliar dos insectos, um amigo que com ele trabalhava no domínio da ilustração científica lhe sugeriu que, em vez de simples fichas, o autor publicasse sim, não um conjunto de fichas, mas um livro, o que ele viria de facto a concretizar (refira-se desde já que também o livro está disponível para download, em versão integral). Para se ter uma melhor ideia do trabalho de Carlos Coutinho, a DRAP Norte conta entre as suas publicações disponíveis, as referidas fichas técnicas, as seguintes: “Oídio, Traça e Podridão Cinzenta da Videira” (2002), “A Zêuzera – Broca dos Ramos e do Tronco das Fruteiras” (2004), “Insectos Auxiliares da Agricultura” (2004), “Aves Insectívoras” (2005), “Animais Auxiliares da Agricultura” (2005), “Pragas da Macieira” (2006), “O Pedrado das Parmóideas” (2006), “Sintomas do Míldio da Videira” (2008), “Bacteriose da Nogueira” (co-autor, 2008) e “Olho de Pavão – doença comum do olival” (2008). Carlos Coutinho fala-nos desses trabalhos, e das sugestões que através deles se dão aos agricultores. De como, por exemplo, as cobras penetram nas galerias dos ratos e têm um importante papel do controlo de várias espécies destes roedores, ou da prática completamente irrazoável de matar os licranços, réptil totalmente inofensivo e predador de muitas espécies nocivas para a agricultura. Da importância, no domínio agrícola, de preservar espécies como as raposas ou os ouriços-cacheiros. Os pardais, por exemplo, em 80% do ano alimentam-se sobretudo de insectos, só no Inverno se alimentando de grãos devido à escassez desses recursos. A divulgação destas fichas e outras publicações de interesse dos agricultores é feita sobretudo em feiras. Da parte dos agricultores, existe um grande desconhecimento dos benefícios da protecção destas espécies, a que não será alheia a deseducação levada a cabo pela indústria química que, no pós-guerra conseguiu generalizar o uso de insecticidas e pesticidas, alguns dos quais, como o DDT, se vieram a revelar altamente perigosos, já que, como neste caso, entrando na cadeia alimentar, nunca mais são excretados, passando de espécie para espécie.

Hoje em dia, todavia, a comunidade internacional tem vindo a limitar o uso de muitos químicos e essa é mesmo uma das razões que “obrigam” a uma nova edição de “Artrópodes Auxiliares na Agricultura”, já que, por exemplo, os anexos presentes no livro “Efeitos secundários não desejados dos produtos fitofarmacêuticos…” se encontram desactualizados por muitos desses produtos terem entretanto sido banidos. O próprio uso de muitos produtos químicos pelos agricultores é muitas vezes desadequado, já que é vulgar recorrer-se a uma sobredosagem para obter melhores ou mais rápidos efeitos, quando as concentrações aconselhadas já são por si, muitas vezes, objecto de sobredosagem (uma estratégia defensiva dos fabricantes), como estudos laboratoriais independentes têm comprovado muito frequentemente. A própria indústria química procura adaptar-se aos novos tempos, produzindo, por exemplo, insecticidas “biológicos”. Mas hoje em, dia, prova de que se vive já uma situação diferente, é o facto de o mercado dos animais auxiliares da agricultura ser um negócio florescente, havendo cerca de 400 espécies comercializadas na Europa (embora nenhuma das quais produzida em Portugal, salvo um caso particular na Madeira, com a produçãode machos estéreis da mosca-do-mediterrâneo, uma praga das fruteiras). A importação, em Portugal faz-se sobretudo da Holanda e da Grã-Bretanha. Nesta área concreta do combate biológico, com a introdução de espécies auxiliares, Carlos Coutinho recorda apenas uma acção concreta em que participou, com a largada de insectos que parasitam as larvas da mosca-branca-das-estufas, na zona de Famalicão. De resto, no seu trabalho quotidiano, o técnico trabalha é no sector dos Avisos Agrícolas, que consiste na produção e divulgação de boletins, editados sem periodicidade certa, e de carácter exclusivamente fito–sanitário. A sua oportunidade é precisamente determinada pela evolução climática ou de outros factores que intervêm no surgimento das pragas. Estes conselhos podem ser, por exemplo, de quando, como e com quê combater uma praga, ou até um aviso negativo, o de aconselhar, como exemplo contrário, até a não fazer nada. Os avisos são, digamos, uma prática universal, geralmente limitando-se a esses aspectos fito-sanitários, embora, em Espanha, por exemplo, já se dêem conselhos de rega. Os novos agricultores começam a apresentar uma nova atitude perante as culturas, mas os mais velhos, relativamente aos insectos, por exemplo, têm realmente um desconhecimento muito generalizado. As únicas espécies que tradicionalmente protegem são as abelhas (por causa do mel) e, mais recentemente as joaninhas, de que existirão em Portugal cerca de 120 espécies identificadas (!). Mas muitas outras espécies são ignoradas ou mesmo destruídas, algumas delas de excepcional importância, como as crisopas, extremamente vorazes e que comem os ácaros e os piolhos das culturas. Ou os himenópteros, como o tricograma, que parasitam os ovos dos próprios insectos, e que são conhecidos e usados com muito êxito, há muitos anos, por exemplo na Índia e na antiga União Soviética. A este propósito, Carlos Coutinho faz aqui um parêntesis para referir a cooperação histórica neste domínio, entre a comunidade de investigadores franceses e soviéticos, o que se terá ficado a dever, muito provavelmente à histórica influência da cultura francesa na Rússia (recorde-se que toda a corte e alta nobreza russa, antes da Revolução de Outubro falava Francês). Devido à grande insensibilidade e às vezes mesmo aversão dos agricultores pelos insectos e mesmo outros animais, muitas vezes os técnicos preferem levar à prática a protecção dessas espécies dando conselhos indirectos (como o de não se queimarem os silvedos – antes cortá-los, de não tapar a entrada de minas, de não deitar os tratamentos químicos nas beiras dos caminhos, de manter as árvores antigas, etc.). Por isso, o livro “Artrópodes Auxiliares na Agricultura” tem como destinatários principais não os próprios agricultores, que seriam os interessados mais directos, mas os estudantes, do Secundário, por exemplo, futuros técnicos ou futuros agricultores. Também outras espécies herbáceas ou arbustivas são, por vezes, habitat de espécies auxiliares, sendo aconselhável a sua proximidade de certas culturas. É esse papel que muitas vezes têm as sebes, caso das sebes de sabugueiro, muito úteis nas proximidades de pereiras e macieiras, pois atraem insectos que são inimigos das pragas do pomar. Tal como também existirão contra-indicações, caso de algumas plantas da grande família das rosáceas, que são desaconselháveis nas imediações dos pomares. Um outro exemplo, a uva-espim, uma planta muito usada, é hospedeira secundária da ferrugem-dos-cereais. A PRÁTICA DAS PODAS Questionado sobre a questão da prática das podas, Carlos Coutinho invoca a obra de Vieira Natividade, engenheiro agrónomo e silvicultor (nascido em Alcobaça e falecido em 1968), e que é uma referência da silvicultura portuguesa – autor de uma ainda hoje considerada a melhor obra sobre a cultura dos sobreiros. Pois Vieira Natividade considerava precisamente que muitas das podas levadas a cabo não eram verdadeiras podas, mas simples decapitações. Segundo este autor a poda deveria pressupor uma grande sensibilidade para com as necessidades da árvore, o que muitas vezes não se verificava. Por aquilo que se vê, muitas vezes a melhor poda é não fazer nenhuma. Para a árvore, a poda, em princípio, só traria malefícios. E Carlos Coutinho refere a grande falta de sensibilidade manifestada em muitas das chamadas podas que ele vê, por exemplo, neste concelho de Valongo – falando, em particular da maneira de “podar” os plátanos, que muito recentemente foram alvo da intervenção municipal em vários locais de Ermesinde. Se se quer fazer uma poda, preservando minimamente a saúde da árvore, então uma das forma seria cortar apenas alguns dos ramos e não todos, como se vê frequentemente, porque as árvores acumulam reservas nos pequenos ramos, que as ajudam depois e que devem, por isso, ser preservados. Relativamente ao tratamento das árvores ornamentais do concelho, o técnico agrícola não tem dúvidas de que existe uma grande impreparação e dá, como contraponto o exemplo positivo da Câmara Municipal da Maia, citando o muito bem tratado Parque dos Moutidos como exemplo do que se deve fazer, e por sua vez defendendo o papel destes parques de proximidade. Sobre a plantação de plátanos em ambiente urbano, Carlos Coutinho não tem nada a opor, em princípio, desde que plantados em locais com espaço amplo. A maior parte dos plátanos aqui plantados são espécies híbridas americano–europeias. No caso controverso das árvores que Junta de Freguesia pretende abater no largo da feira antiga, Carlos Coutinho não se oporia, por princípio ao abate de algumas árvores, mas no caso presente, considera um pretexto sem fundamento e acha grave a mutilação da alameda do lado superior, para aí se poderem implantar baias de estacionamento. Faz finalmente uma espécie de passagem à vol de oiseau sobre a cidade de Ermesinde e a sua riqueza silvícola, para assinalar que, embora seja já reduzido o seu espólio, há ainda um ou outro caso de espécies muito valiosas em Ermesinde, e concretiza, a título de exemplo, com a presença ao cimo da Gago Coutinho, de uma canforeira, talvez única em Ermesinde! Por: LC

Fonte: http://www.avozdeermesinde.com/noticia.asp?idEdicao=182&id=5998&idSeccao=1846&Action=noticia

 

cluster da terra

Agricultura biológica. Acaba amanhã a Semana Bio, dedicada a esta fileira crescente. Foi um sucesso para produtores, comerciantes e consumidores. A INTERBIO lançou um documento-proposta para uma política nacional no setor.

Luísa Schimdt (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 1 de Dezembro de 2010
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Um velho arcaísmo mental, tantas vezes mal-intencionado, lançou uma estranha aura sobre a chamada agricultura biológica. À volta dela não faltam as ironias. Há sempre uns espertos enérgicos a sacudi-la como se ela não passasse de um obscurantismo hippie dos anos 60.

A agricultura biológica, ou seja, produzida sem pesticidas de síntese, sem fitofármacos, e praticada em solos não contaminados, é não só saudável como não polui águas e terras. Muitas vezes os seus produtos enquadram-se mal na normalização que desgraçadamente nos foi imposta durante anos na pós-adesão à UE. Como se o destino de toda a produção agrícola fosse uma linha de montagem e a automação do mercado. Foi assim, por exemplo, que se arrancaram milhares de pomares de macieiras autóctones (camoesa, bravo-de-esmolfo, etc.) para nos porem a comer insípidas maçãs golden todas calibradas por igual.

Felizmente os tempos mudaram. Os consumidores não pararam nas últimas décadas de aumentar a procura dos produtos de agricultura biológica. Tornaram-nos por vezes produtos de luxo, produtos gourmet e portanto caros. Mas nem sempre. Hoje com uma importante fileira já instalada, os produtos biológicos impõem-se no mercado por uma simples razão: são melhores. Melhores em sabor, duração, rendimento, e melhores para a saúde pública, tanto alimentar como ambiental.

Para mais, esta fileira crescente não só mostrou grande resistência aos embates da crise como até tem crescido. É por estas e por outras que na Itália, França, Alemanha, Áustria… se tem expandido, e muito, a agricultura biológica.

Ora, Portugal, que mercê de razões históricas nem sempre felizes oferece condições naturais notáveis à criação desta galinha dos ovos de ouro, parece que prefere negar o que todos os outros países comunitários lhe mostram como caminho.

Comparem-se apenas as políticas de promoção da agricultura biológica e das respetivas fileiras de transformação num país como a Áustria e num país como Portugal. O abismo é imenso. Os governos austríacos têm promovido uma verdadeira ofensiva estratégica a este nível – informação, promoção, incentivos de vária ordem, apoio na ligação ao mercado, etc. Por cá, nada, ou quase…

E não se diga que o problema é não haver em Portugal quem se dedique à agricultura biológica. Passa-se exatamente o contrário: há cada vez mais produtores de sucesso nesta área, e cada vez mais gente a querer dedicar-se a ela. Mesmo com dificuldades, já se exporta. Apenas dois bons exemplos: em Vila Real de Trás-os-Montes já existe a maior produção nacional de cogumelos frescos e enlatados para consumo interno e para exportação. No Alentejo, uma unidade pioneira produz, desmancha, transforma, embala, distribui e exporta carne fresca biológica (peru preto, borrego merino, bovino autóctone, porco preto e cabrito serpentino).

A associação destes agricultores – INTERBIO – acaba de apresentar, aliás, uma proposta de política nacional para o sector. Justamente aquilo que angustiosamente lhe falta: políticas eficazes para a constituição de uma fileira industrial agroalimentar que transforme a matéria-prima no produto que o consumidor vai adquirir; e políticas que promovam a exportação destes produtos de excelência.

Tem faltado também algum rasgo empresarial às grandes cadeias de comercialização. Mas não faz mal, já que, cada vez mais, outros circuitos mais maneirinhos, mais simpáticos e muito mais flexíveis e ágeis vão fazendo o bom negócio que as grandes superfícies não foram capazes de aproveitar. Sabemos que têm as suas razões, mas por alguma razão essas razões noutros circuitos são menos razoáveis. Só nos últimos dois anos – em plena crise – abriram várias lojas e pequenos mercados, e no país já existem mais de 60, fora as lojas online. Dir-se-ia que muitos consumidores, atingidos nas suas possibilidades de adquirir pela lógica da quantidade, dão cada vez mais importância à lógica da qualidade. Só assim se percebe a expansão do sector.

Hoje, que se reconhece a necessidade de apostar na produção, na excelência, na exportação, não se percebe como é que o país não é já uma grande referência mundial neste tipo de produtos. Valia a pena perceber bem que coisas são feitas – ou não são feitas – nos infinitos serviços do Ministério da Agricultura neste âmbito. Talvez se entendesse melhor porque temos de viver um destino tão contrário ao da Áustria, apesar de termos condições mais favoráveis do que ela. É que, no nosso território minúsculo, apinha-se uma enorme variedade de condições capazes de multiplicar as boas experiências.

O Estado, nos tempos que correm, não pode desperdiçar o próprio país. E todos os horizontes viáveis são igualmente importantes: temos (finalmente!) o cluster do mar. Precisamos do cluster da terra. Uma terra que ficará duplamente grata: pela excelência do uso que lhe é dado através da agricultura biológica e pelo inestimável benefício que traz a qualquer território o cultivo e o cuidado das suas paisagens.

Os bancos da vida

E por falar em agricultura biológica, particularmente no ano da biodiversidade, porque será que muitos países ocidentais avançados há décadas que procuram e guardam amostras das sementes de plantas? Porque será que não se limitam a recolhê-las nos seus próprios países e vêm discreta e, por vezes, sorrateiramente recolhê-las a outros países como, por exemplo, o Vietname, o Brasil ou até o nosso? Porque será que constroem autênticos laboratórios bunker para arquivar todas estas sementes? As razões são simples: não só salvam o património genético do planeta como preservam sementes mais resistentes às alterações climáticas, como asseguram a possibilidade de futuros negócios chamando suas – por via das célebres patentes – a ‘criaturas’ que desde a criação do mundo pertencem ao condomínio da terra. Por cá também temos um banco de germoplasma em Braga. E se hoje o estímulo à atividade científica reforçou o seu valor, ainda há alguns anos vivia na ameaça permanente de asfixia. Nada está completamente seguro, mas alguma consciência crescente do valor científico e económico dos nossos patrimónios genéticos começa a ganhar solidez, e um número crescente de adeptos toma iniciativas locais para proteger e garantir a continuidade de espécies autóctones vegetais e animais. Um caso conhecido é o de António Campos, ex-ministro da Agricultura, que se tem dedicado na região de Viseu à salvação de inúmeras espécies de frutos autóctones. Ou o botânico Jorge Paiva, da Universidade de Coimbra, que reúne os seus alunos e adeptos em jantares anuais oferecendo uma ementa de variedades alimentares antigas e hoje já quase desconhecidas. Outro caso passa-se em Ferreira do Alentejo, onde uma associação de agricultores se juntou para salvar espécies de grão-de-bico, feijão, etc. resistentes à seca. Ou a associação Colher para Semear, que recolhe por todo o país variedades tradicionais que divulga no jornal “O Gorgulho”. Recentemente, diga-se, o Estado criou um banco de germoplasma animal em Santarém. São estas as coisas importantes que ficam no ano da biodiversidade.

OGM? Não, obrigada!

Infelizmente, ao mesmo tempo que tudo isto acontece, os poderosos lóbis dos OGM vão arrombando a legislação de cada vez mais países em mais partes do mundo, incluindo a UE, que acabou por autorizar o seu cultivo. Nas palavras de um agricultor catalão, “não é possível fazer conviver o ruído e o silêncio na mesma sala”. A agricultura biológica ou tradicional nunca poderá defender-se dos efeitos dos OGM, os quais diminuem paulatinamente a biodiversidade nas terras onde chegam. Trata-se de culturas incompatíveis. E há países, como Portugal, que só têm a perder com opções erradas para o seu quadro de condições naturais de produção. Seja como for, na UE, já circula uma petição contra o cultivo de OGM com um milhão de assinaturas – o suficiente para, no âmbito do Tratado de Lisboa, o assunto ter de ser rediscutido.

Lograd’ouro

E, por falar em rediscussão de assuntos, estamos todos de parabéns pela decisão camarária de reconsiderar o regulamento do PDM de Lisboa no que respeita à ocupação dos logradouros da cidade. Mesmo assim, este caso alertou para a necessidade de manter uma atenção bem viva a todo este documento ainda em elaboração. É que, apesar das melhorias, não só os logradouros não estão ainda completamente assegurados (v. artº 45) como em muitos outros assuntos (das cérceas às áreas totais de construção) o regulamento pode deixar passar decisões contrárias à qualidade de vida em Lisboa.

Texto publicado na edição do Expresso de 27 de novembro de 2010

 


Um terreno tomado pela infestante Amaranthus palmeri (trata-se da planta mais alta)

Maio de 2010 – Aconteceu. Aquilo que a Monsanto em tempos tinha afirmado que não passava de um conceito “duvidoso”, tem agora honras de notícia no New York Times. Trata-se do aparecimento generalizado, em milhões de hectares distribuídos por 22 estados americanos, de pelo menos 10 espécies de ervas daninhas resistentes ao herbicida Roundup, da Monsanto. Segundo Andrew Wargo, presidente da Arkansas Association of Conservation Districts, trata-se “da maior ameaça à produção agrícola que alguma vez vimos”.
Estas pragas aparecem nos terrenos em que são cultivadas plantas transgénicas (também elas resistentes ao Roundup) e, como não são afectadas por este herbicida, competem pelos nutrientes e sufocam a cultura. Ainda segundo o New York Times os produtores estão a ver-se obrigados a recorrer a herbicidas mais tóxicos, que já tinham sido abandonados, para liquidar as infestantes. Segundo um outro comentador citado na mesma notícia, “A indústria da engenharia genética está a arrastar-nos para uma agricultura mais dependente de pesticidas quando sempre tinham prometido, e nós precisamos de utilizar, a direcção oposta”.
O que está a acontecer nos Estados Unidos é perfeitamente previsível e biologicamente inevitável. É o que nos vai acontecer a nós se formos pelo mesmo caminho, e é também uma demonstração de que os transgénicos não correspondem a nenhum paradigma de sustentabilidade, antes empurram os agricultores para um círculo vicioso de químicos cada vez mais fortes, cada vez em maior quantidade. A situação actual ainda não atingiu o seu ponto alto, mas já é de tal modo grave que a Syngenta, uma competidora da Monsanto, já criou um site só para mostrar o mapa dos locais onde as infestantes já se instalaram e vender químicos alternativos ao Roundup!

NY Times : 183

Retirado de : http://stopogm.net/content/resistencia-generalizada-infestante