O artigo que se segue intitula-se “Comer com gosto”, se eu fosse o autor mudaria o titulo para “Comer e não adoecer”.

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Da autoria de : Margarida Silva, Bióloga

COMER COM GOSTO

Deve haver poucas pessoas que não gostem de comer, e eu não
sou uma delas. Gosto de experimentar receitas das sobremesas mais
exóticas, amassar pão à procura do mais genuíno
sabor, ficar-me esquecida nas livrarias a apreciar livros de
cozinha recheados de resultados impossíveis de obter em casa.
Mas não sou de olhar só para o resultado: os meus
ingredientes escolho-os com cuidado e atenção porque é a
minha família, a saúde e boa disposição de todos, que
está em causa. E, neste capítulo, sou muito tradicional:
procuro o melhor, sem compromisso. Por exemplo, se olho para a
lista de ingredientes de uma embalagem de comida e vejo
números além dos nomes… é porque foi feito no
laboratório e não no campo. E o que sai do laboratório,
pela minha lógica, não pode ser comida.


Mas mesmo eliminando o que inclui números ainda sobra muita
coisa que não entra no meu carrinho de compras. Por exemplo,
não aprovo ingredientes que, há cem anos apenas, ninguém
usaria na cozinha, mesmo se começarem pela palavra Vitamina,
ou jurarem que fazem bem aos intestinos. E depois ainda há
aquelas comidas que se querem fazer passar por outras –
chamo-lhes os travestis. Margarina e bolachas com “sabor” a
chocolate são bons exemplos, mas os adoçantes que querem
fazer de conta que são açúcar para poupar nas calorias
são talvez daqueles a quem mais cuidadosamente barro a porta
de casa. Quando tenho dúvidas, aplico uns testes muito
simples: pode ser produzido numa quinta, ou pescado no mar?
Percebo como passa do estado original para a embalagem final? Se
a resposta é não, é porque não é para mim. Isso
leva-me a passar ao lado de quase todo o pão dos supermercados
e padarias, repleto que está de “melhorantes” e “enzimas”, ou
ainda da míriade de outros alimentos com espessantes,
corantes, estabilizantes ou demais maravilhas da tecnologia
alimentar.

Claro, a maneira como a comida é processada também conta,
não basta escrutinar os ingredientes. A radioactividade, por
exemplo, pode ter muitos fins úteis, mas comida irradiada rima
com comida doente… e que nos põe doentes a nós. E a
aplicação de radiação electromagnética (vulgo forno de
microondas) garantidamente também não foi pensada para nos
trazer mais saúde. Quanto ao leite UHT, o tal que ainda
está igual a si próprio mesmo após seis meses de
esquecimento no fundo do armário, bem, arranjem leite do dia
pasteurizado, encham um copo de cada um e façam o teste à
família toda, a ver se não distinguem o que ainda sabe a
leite daquele que do leite já só tem o aspecto.

Na busca da comida como “nos bons velhos tempos”, gosto de
reparar também nos ingredientes “invisíveis”. Prefiro, tal
como a restante população europeia, que as minhas
hortaliças sejam sem pesticidas, o meu leite sem
antibióticos e a minha carne sem hormonas… mesmo se
trouxerem o selo europeu de autorizado. Se for do campo e não
de aviário ou de aquacultura, melhor. E sendo colhido e comido
na época, melhor ainda.

E que dizer da mais moderna de todas as invenções alimentares,
os alimentos geneticamente modificados, ou transgénicos? Já
ouvi as sete maravilhas sobre eles: mais nutritivos, mais
duradouros, mais limpos de pesticidas, muito estudados e seguros,
até a fome no mundo e a crise energética (através de
biocombustíveis) eles se preparam para resolver. Mas eu
confesso: a primeira vez que comprei óleo de soja e depois
verifiquei pelo rótulo que continha soja geneticamente
modificada senti um aperto abaixo do estômago que nunca me
engana. Esta comida transgénica pode ser apropriada para
cobaias de laboratório, mas não é comida de gente. Mas
claro, o problema é poder escolher. Para já anda por aí
soja e milho transgénico, mas já este ano a Comissão
Europeia pretende aprovar arroz transgénico. Arroz! O mais
castiço dos cereais que comemos em Portugal!
Fui informar-me e fiquei a saber que os portugueses são os
“chineses” da Europa: cada um de nós come em média 17
quilos de arroz por ano, enquanto que os italianos, que estão
em segundo lugar atrás de nós, não comem mais que uns
míseros sete quilos. Os dinamarqueses, coitados, não sabem
o que é arroz doce e não vão além de quilo e meio por
ano. E agora, querem abrir a nossa porta ao arroz
transgénico?! Isso é, para a gastronomia, o mesmo que
deitar abaixo o Mosteiro dos Jerónimos seria para a nossa
história e cultura!

Senhor Ministro da Agricultura: espero que goste de arroz de
ervilhas, de arroz malandro, de arroz de forno e de arroz de
pato. Espero, em suma, que goste de arroz, porque ser
português também é isso: durante a última grande
guerra devemos em grande parte ao arroz a nossa sobrevivência
alimentar. Quando se sentar em Bruxelas e chegar a vez de votar o
arroz transgénico, Senhor Ministro, vote por nós.

Margarida Silva, bióloga

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